sexta-feira, novembro 27, 2009

Quando o Amargo se faz Doce

Minha avó gritou pra que eu acudisse minha mãe rapidamente. Corri. Quando entrei no quarto onde ela estava, fiquei assustado ao ver mamãe quase desfalecida, tentando respirar sem sucesso, resultado de uma crise fortíssima de asma. Vovó me deu alguns cruzeiros pra que eu fosse à farmácia do “seu” Alencar comprar “isuprel” – uma bombinha “milagrosa” que devolvia ao asmático o direito de respirar. Voei com a minha monark pelas ruas do meu bairro. Depois de algumas fortes pedaladas cheguei à farmácia. Pulei da bicicleta e, esbaforido, sussurrei:

– Isuprel!

Prontamente, o farmacêutico pegou o remédio da prateleira, percebendo que se tratava de uma emergência. Voei de volta, me sentindo um verdadeiro herói. Chegando em casa, mamãe deu algumas bombadas inalando o medicamento pela boca e a respiração foi se normalizando. Depois de alguns poucos minutos, lá estava ela respirando sem nenhuma dificuldade como se nada tivesse acontecido.

Problema resolvido, ainda perplexo com o acontecido, no meu modo infantil de ver as coisas, comecei a discursar dentro de casa. – “A senhora não pode ficar sem essa bombinha. Que perigo! Já pensou se fosse de madrugada? Aonde a gente ia encontrar farmácia aberta?!”. E continuei com o meu sermão, que na verdade expressava o meu medo de perder minha mãe. Por fim, fiz uma proposta movido pelo meu desespero. Propus que fizéssemos um estoque de vinte bombinhas de “isuprel”, pra que mamãe não corresse mais risco algum de morrer sufocada – um exagero tolo que fez com que todos rissem, pois no máximo minha mãe consumia um frasco do medicamento por mês, já que suas crises de asma não eram freqüentes.

Salomão afirma que “a alma farta pisa o favo de mel, mas para a alma faminta todo amargo é doce”. A necessidade nos ensina. Valorizamos o que nos falta, pois para a alma faminta até o que é amargo parece doce; mas, por outro lado, chegamos a pisar o favo de mel quando estamos fartos.

No amor de Jesus,

Laerte Cardoso

(Pv 27:7)

Um comentário:

rvlopes disse...

Isso lembra o quanto devemos dosar tudo na vida, inclusive o que nos parece essencial.

Essas lembranças da sua infância são ótimas.