Eu sou o terceiro de uma família de cinco filhos. Antes de mim nasceram duas meninas, depois de mim nasceram mais uma irmã e um menino. Acho isso um privilégio, porque como filho do meio, participei tanto da criação das mais velhas como da criação dos dois mais novos. Isso porque a diferença da primeira filha para o último é quase doze anos. Na primeira fase da família, isto é, eu e minhas duas irmãs mais velhas, talvez por ser mais jovem, o rigor de minha mãe era maior. Os dois últimos já desfrutaram de um momento mais light dos nossos pais. Lembro-me que papai pegava no pé das duas exigindo um comportamento de mocinhas, mas não tinha jeito. Nos restaurantes, era comum elas derramarem copos cheios de refrigerante sobre a mesa, ou deixar cair talheres no chão. Papai não dava trégua, chamando-as de estabanadas.
Foi nessa época que foi morar conosco um sobrinho de minha mãe. Um rapazinho de quatorze anos de idade, muito humilde, que deixou sua casa em Minas Gerais e foi para São Paulo a fim de buscar oportunidades melhores. Sempre muito respeitador, fazia tudo que minha mãe mandava, e logo conquistou o coração de todos nós. Ele era mais velho que minhas irmãs, e tinha oito anos a mais do que eu. Tornou-se meu irmão mais velho e me influenciou positivamente em muitos aspectos.
Antônio tinha um humor refinado, além disso, mostrava-se sempre destemido em situações de aperto. Porém, sua característica maior era a leveza com a qual se conduzia. Ele não fazia barulho, era muito silencioso. Tinha a capacidade de entrar e sair dos ambientes sem que ninguém percebesse. Foram várias as vezes em que tomamos sustos enormes quando de repente virávamos as costas e dávamos de frente com ele sentado numa cadeira, ou em pé junto à porta. Ele aproveitava essa habilidade para se divertir. Quando nos assustávamos ele ria, mas até isso fazia discretamente, como lhe era peculiar.
Ele era a antítese das minhas irmãs. Enquanto elas derrubavam tudo, Antônio tinha a destreza de um gato. Várias vezes vi o gato da tia Maria caminhando com leveza entre bibelôs em cima do piano, sem esbarrar em nenhum deles. Eu ficava admirado com a habilidade do bichano, e para mim essa era a figura que mais se assemelhava ao primo Antônio. Meu pai dizia que ele era discreto, minha mãe falava que Antônio era sutil. Graças a Deus, Antônio nunca decepcionou nenhum de nós. Aquele rapazinho que chegou na nossa casa, cresceu, tornou-se um excelente profissional, casou-se, formou família e continua a viver discretamente. Porém, devemos considerar que, em alguns casos, aquilo que é sutil pode nos surpreender negativamente.
“Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo;” (Colossenses 2:8)
No amor de Jesus,
Laerte Cardoso
(esse texto faz parte de um dos capítulos do meu livro “Quem é que Está Falando?”, portanto é uma pequena degustação)
Um comentário:
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