Um dia desses, lembrei-me de uma conversa que tive com uma colega quando cursava a Faculdade de Jornalismo. Naqueles tempos de aluno da PUC, o que mais fazíamos era escrever – o que me dava muito prazer. Semanalmente produzíamos textos e mais textos sobre as mais variadas pautas. Certo dia, quando avaliávamos algumas produções, essa colega, cujo nome não me recordo, me fez uma pergunta curiosa:
– Laerte, você escreve por que gosta, ou por que precisa escrever?
Sem pensar muito, eu respondi:
– Porque gosto!
De bate-pronto, ela decretou:
– Então, você não é um escritor.
Buscando entender o que ela estava afirmando, perguntei:
– Por quê?
Com segurança, ela respondeu:
– Um escritor não escreve somente porque gosta, mas porque precisa escrever. É uma necessidade dele, se ele não escreve, ele não se satisfaz!
A verdade é que, naquele momento, não concordei muito com a análise radical da minha colega. Porém, com o passar do tempo, percebi que não viveria sem escrever e que, mais do que gostar, eu preciso escrever. O exercício da escrita é uma necessidade que tenho. Ainda que me dê certo prazer, o que me leva a escrever não é o prazer em si, mas a necessidade.
Pois então. De repente, muitos anos depois, aquela conversa ressurgiu em minha mente e percebi que era algo do Espírito Santo. Há uma sutileza nisso tudo que eu me arrisco a explicar. Nem sempre a necessidade está associada ao gostar. Eu amo a presença de Deus, mas também sei que não poderei viver sem ela, ou seja, se eu quiser viver a eternidade com Ele, sei que não tenho outra opção a não ser buscá-lo diligentemente de todo o coração. Muitas vezes, só queremos fazer aquilo que gostamos e isso sacramenta o nosso poder de escolha e nos centraliza em nosso egoísmo. Ao invés de tomarmos a nossa cruz que nos credencia a seguir Jesus, optamos por nossas preferências – aquilo que no momento nos proporcione maior satisfação –, sem conseguir abrir mão de nada.
Para facilitar a nossa compreensão, considere uma pessoa que goste de ir ao culto aos domingos. Ela pode gostar do culto, mas também pode gostar de ir aos estádios de futebol, ou ao sítio, ou à praia, ou de qualquer outra atividade. Se essa pessoa gosta disso tudo, ela reserva para si o direito de escolher o que é que vai fazer aos domingos e optar por aquilo que vai lhe dar mais prazer num determinado instante. Porém, é diferente quando ela tem consciência de que não pode viver sem Deus e que estar na presença dele junto com os seus irmãos é uma necessidade. Nesse caso ela não fará uma opção por aquilo que meramente gosta, mas por aquilo que ela precisa, e por isso torna-se capaz de abrir mão de tudo.
Voltando à analise da minha colega universitária, alguém pode gostar de escrever e mesmo assim, ficar meses sem escrever. De igual modo, alguém pode gostar de ir à igreja e passar meses sem ir. Pode gostar de ir à célula, mas deixar de ir quando aparecer outra coisa que também goste e lhe dê prazer. Aí está o “xis” da questão. Os dias atuais são marcados pelo hedonismo. O ser humano vive buscando o que mais lhe agrada, o que mais lhe dá prazer, o que mais lhe satisfaz. O centro da sua vida é ele mesmo. Por isso, muitos estão procurando “o melhor culto”, “o pastor mais poderoso”, “o melhor louvor”, “o melhor isso”, “o melhor aquilo”. Enquanto não atingirmos o entendimento de que somos carentes da graça de Deus e que não podemos viver sem a sua presença, continuaremos comandando a nossa vida e buscaremos aquilo que gostamos e não o que precisamos.
É assustador o número daqueles que se afastam do caminho de Deus e que de vez em quando sentem saudade e retornam, mas, depois que matam a saudade, vão novamente embora. Eles retornam porque gostam da igreja, dos irmãos da igreja e de outras coisas que têm na igreja, mas vão embora porque também existem outras coisas lá fora que eles também gostam, e como vivem correndo atrás do que gostam, acabam sendo conduzidos pelos desejos da alma e não pelo espírito de adoção que clama Aba, Pai.
No Salmo 42, Davi diz que a sua alma suspirava por Deus como a corça suspirava pela corrente das águas. Em outras palavras, Davi estava dizendo que não poderia viver sem Deus, e assim confessou a sua necessidade. É desse modo que nós temos de encarar a vida espiritual. Se “estou a fim” ou se “não estou a fim”, isso é o que menos importa, eu sei que preciso da presença do meu Deus, dependo dela e por isso tenho que buscá-la. De antemão sei que nada poderá me dar mais prazer do que a sua presença, mas terei que me esforçar. Não posso me tornar refém de sentimentos que se revezam dentro de mim. Não posso ser manipulado pelas minhas próprias emoções que às vezes me puxam para baixo e outras vezes me jogam para cima. Minha colega afirmava que um escritor não pode ficar sem escrever. Pois não tenho receio de afirmar que um adorador não pode ficar sem adorar. Ele não tem escolha. É a grande necessidade da sua vida, e por isso é capaz de deixar tudo para trás para poder estar na presença do seu Deus.
No amor de Jesus,
Laerte Cardoso
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