Já passava das duas da tarde e minha avó já não tinha mais certeza se o primo Josino realmente estava vindo nos visitar. Ele tinha mais de sessenta anos, morava em Minas Gerais, e era muito engraçado, daquele tipo que sempre tem uma história interessante e bem humorada para contar. Ele era primo da minha mãe, mas regulava de idade com a minha avó, e quando nos visitava enchia a casa de alegria. Pelo telegrama, minha mãe calculou que ele chegaria às oito da manhã. Dizia o texto: “saio de BH sexta às seis da tarde”. Naquela época, quem saía de Belo Horizonte às seis da tarde, chegava em São Paulo por volta das cinco da manhã, tempo suficiente de pegar o Pássaro Marrom das seis para Jacareí. Levando-se em consideração algum atraso possível, oito da manhã primo Josino já deveria estar em nossa casa. Estávamos preparados para isso. No dia anterior mamãe convocou toda a turma e fizemos uma faxina daquelas. A varanda e a sala da casa, ou seja, os maiores cômodos, sempre ficavam para mim. Eu era o responsável por encerar e deixar o piso brilhando, tarefa que desempenhava muito bem, sem economizar na parquetina.
Tudo pronto. Acordamos mais cedo do que o costume para um dia de sábado. Mas certamente valeria a pena, principalmente porque o primo Josino era incapaz de nos visitar sem trazer uma lembrancinha para cada um. A sua generosidade não lhe permitia chegar em nossa casa de mãos abanando. Mesa preparada para o café da manhã, aguardávamos apenas ele chegar para participar daquele banquete matutino pouco comum para nós. Oito, oito e trinta, nove, nove e trinta, e nada do primo. Devido à pressão que fizemos, o café foi liberado às dez, mesmo sem a presença do nosso visitante, um atraso de duas horas já justificava a liberação com louvor. Comemos e fomos brincar. O tempo continuou a correr e perto do meio-dia certa preocupação tomou conta da família. O que teria acontecido? O problema é que naquela época não havia nada a fazer a não ser aguardar. Depois das duas, minha avó começou a considerar a hipótese de alguma informação errada no telegrama.
– “Quem sabe a viagem é na próxima semana e não nessa?” Vovó indagava, tentando arrefecer a tensão que já havia tomado conta de todos. Foi então que, para o verdadeiro alívio da família, às duas e meia, uma Variant vermelha estacionou em frente a nossa casa. Era o taxi chegando da rodoviária trazendo o primo Josino.
– “Antes tarde do que nunca!” Exclamou minha avó, assim que o primo entrou pela porta da sala. Acho que foi a primeira vez na vida que ouvi essa expressão. Sem entender o que estava acontecendo, ele perguntou para vovó a razão daquela frase. Quando ela disse que estávamos o aguardando desde as oito da manhã, incrédulo ele perguntou:
– “Mas vocês não receberam o meu telegrama informando que eu sairia à meia-noite de Belo Horizonte?”
Com a paciência e bom humor que sempre caracterizaram minha mãe, ela rapidamente mostrou ao primo que ele havia enviado um telegrama dizendo que sairia às seis da tarde de BH, ou seja, seis horas antes do horário que ele saiu.
Equívocos à parte, ficou a frase da minha avó: “Antes tarde do que nunca”. Lamentavelmente, existem coisas que depois que é tarde não tem mais jeito. Não era o caso do distraído primo Josino, que esperado às oito, chegou seis horas e meia depois.
“Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo...”. (Eclesiastes 3:11)
No amor de Jesus,
Laerte Cardoso
(esse texto faz parte de um dos capítulos do meu livro “Quem é que Está Falando?”, portanto é uma pequena degustação)
Um comentário:
hehehe... Eu lendo Novembro em fevereiro, cai bem esse ditado, antes tarde do que nunca.
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