Visão não é um assunto que se resume apenas àquilo que enxergamos para o nosso ministério. Além da visão do seu próprio trabalho, o servo de Deus deve ter visão do potencial de trabalho de servos menos experientes, que precisam da orientação e do apoio daqueles que são mais experimentados. Essa é uma forma de se investir no futuro. Nesse aspecto, Barnabé nos dá um grande exemplo.
A última vez que o seu nome é mencionado no livro de Atos dos Apóstolos (At 15:36-39), a referência é feita de uma forma dramática. O texto (v. 39) diz que entre Paulo e Barnabé houve uma grande desavença. Barnabé desaparece da narrativa de Atos em meio a uma grande contenda com aquele a quem ele havia estendido a mão; primeiro integrando-o à igreja – quando os discípulos fugiam de Paulo, não acreditando na sua conversão – e depois, buscando-o em Tarso a fim de trabalharem juntos em Antioquia.
Na primeira viagem missionária, um jovem chamado Marcos auxiliava Paulo e Barnabé. Mas quando saíram de Pafos e rumaram para Perge, na Panfília, Marcos resolveu regressar a Jerusalém (At 13:13). Lucas, escritor de Atos, não explica o motivo pelo qual Marcos deixou a comitiva. Quem sabe, a sua imaturidade. No entanto, Lucas inclui no livro a desavença entre Paulo e Barnabé. O sentimento de Paulo foi tão forte que ele recusou-se a aceitar a companhia de Marcos nesta viagem. O verso 38 diz que Paulo “não achava justo levarem aquele que se afastara desde a Panfília, não os acompanhando no trabalho”. Na opinião de Paulo, o abandono da missão descredenciava Marcos para uma próxima, mas Barnabé não via dessa forma. E esse conflito fez com que se separassem. Talvez tenha sido o mais duro episódio na vida de Barnabé, mas ele resolveu arriscar dando uma nova oportunidade ao seu primo Marcos (Cl 4:10).
Não quero proclamar a ingenuidade de acreditarmos em tudo e em todos. Dando, muitas vezes, oportunidades àqueles que na verdade não têm e não querem ter compromisso com o Reino de Deus. Conquanto, precisamos aprender a enxergar além das aparências. Quando nos aproximamos das pessoas, e nos envolvemos com elas, temos melhores condições de discernir aqueles que realmente merecem uma nova oportunidade. A insistência de Barnabé em levar Marcos consigo não estava estribada em teimosia, em um capricho de querer vencer uma “queda-de-braço”, em querer fazer valer a sua opinião. Estou certo de que o conhecimento da alma do seu primo o levou a este firme propósito de conceder-lhe uma nova oportunidade. Mais uma vez, ele se mostra um homem de visão. Ele enxergou ministério onde outros não enxergaram.
O investimento que fazemos depende daquilo que enxergamos. Como iremos investir sem ter visão do resultado. Aquele que planta, planta motivado pela visão da colheita. Não podemos incorrer no erro de que tudo será feito por nós mesmos, sem a ajuda da geração seguinte. Nós somos responsáveis pela formação de novas lideranças, e elas não surgirão do nada. Há necessidade de boa vontade por parte dos mais velhos com os mais novos. É extremamente importante descobrir novos talentos e prepará-los com amor e paciência. Não podemos abandoná-los se porventura fracassarem. Devemos estar dispostos a corrigi-los e motivá-los a permanecer e desenvolver todo o seu potencial no Reino de Deus.
Barnabé se arriscou. A viagem a Chipre poderia amadurecer Marcos, mas também poderia ter um efeito negativo. As Escrituras mostram que ele amadureceu. Foi ele quem escreveu o segundo Evangelho, que leva o seu nome, provavelmente recebendo informações do apóstolo Pedro. Colossenses 4:10 mostra que ele se reconciliou com Paulo e uniu-se ao apóstolo como assistente no ministério. Quando Paulo se refere a Marcos em 2 Timóteo 4:11, suas palavras revelam o que havia acontecido na vida daquele rapaz: “...Toma a Marcos, e traze-o contigo, porque me é útil para o ministério”. Aquele que antes era inútil, agora se torna útil para o ministério. Aquele que antes foi um problema, agora é requisitado pelo próprio apóstolo para auxiliá-lo na tarefa missionária nos seus últimos dias de vida. E tudo isso só foi possível, porque alguém acreditou nele, porque alguém viu além das aparências, enxergando um ministério que ainda não havia florescido.
No amor de Jesus,
Laerte Cardoso
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